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TECNOLOGIA

Do laboratório à linha de frente: Sandra Coccuzzo transforma pesquisa em resposta concreta à sociedade

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A biomedicina poderia ter levado Sandra Coccuzzo por muitos caminhos. Mas foi no Laboratório de Fisiopatologia do Instituto Butantan que a pesquisadora, ainda estagiária, encontrou o seu lugar. Hoje, doutora em farmacologia e diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC), integra o instituto há mais de 30 anos. Nesse percurso, investigou o potencial terapêutico do veneno de serpentes, esteve na linha de frente da pandemia de covid-19 e participou da formação de diversos cientistas. 

O impacto do trabalho ultrapassou os limites do laboratório, especialmente durante a pandemia, quando a ciência passou a ocupar o centro do debate público. Pesquisas antes restritas ao ambiente acadêmico passaram a ser acompanhadas pela população, com expectativa concreta de aplicação em tratamento e cuidado. 

Antes disso, o caminho até a pesquisa foi guiado pela curiosidade. Ainda na graduação, Sandra buscava compreender os mecanismos por trás das doenças. “A biomedicina tem uma característica de te instigar a perguntar, de querer entender o porquê das coisas. E foi isso que me capturou”, afirma. O primeiro contato com o Butantan também veio por meio de outra mulher, que a encaminhou a uma pesquisadora da instituição. O gesto acabou definindo o rumo da sua carreira — e se repetiria ao longo da trajetória. 

Crotoxina 

No Laboratório de Fisiopatologia, passou a investigar o potencial de substâncias presentes no veneno da cascavel, em especial a crotoxina. O que poderia ser visto como elemento nocivo revelou-se, sob determinadas condições, uma fonte promissora para o desenvolvimento de novas terapias. “Existe uma frase na farmacologia: entre o veneno e o remédio está a dose”, explica. 

Os estudos demonstraram que, em concentrações controladas, a toxina pode modular o sistema imunológico, com potencial terapêutico, inclusive em processos inflamatórios e tumorais. Com o avanço das pesquisas, o foco passou a incluir a compreensão detalhada de sua estrutura molecular, possibilitando a reprodução dessas moléculas em laboratório. 

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Esse processo permite transformar um elemento natural em base para medicamentos sem depender da extração contínua de venenos. “A natureza funciona como um protótipo. A gente aprende com ela e consegue reproduzir essas moléculas de forma sintética”, afirma. 

A dimensão do trabalho se ampliou quando os resultados passaram a circular fora do ambiente acadêmico. “Eu comecei a receber cartas de mães com crianças em tratamento. Pessoas que viam na pesquisa uma esperança. Isso não tem preço.” 

O enfrentamento à covid-19 

Esse movimento se intensificou durante a pandemia. “As pessoas passaram a entender o que é ciência, a se interessar. Hoje existe uma expectativa real sobre o que a pesquisa pode trazer para a vida delas”, afirma. 

À frente de estruturas estratégicas do Butantan, Sandra participou da organização de respostas diretas à crise sanitária, incluindo iniciativas voltadas ao diagnóstico molecular e à vigilância do vírus. 

A pesquisa passou a operar em tempo real, com impacto direto sobre decisões em saúde pública. Foi nesse contexto em que ela contraiu covid-19, mantendo-se em isolamento enquanto acompanhava as atividades do instituto, em um momento em que a ciência se consolidava como ferramenta central no enfrentamento da crise. 

Mulher e cientista 

Ao longo dessa trajetória, a presença feminina na ciência aparece como parte do caminho que Sandra precisou sustentar. No Brasil, a participação de mulheres em publicações científicas passou de 38%, em 2002, para 49%, em 2022, segundo relatório da Agência Bori e da Elsevier. Ainda assim, a desigualdade persiste nos espaços de liderança: em 2023, elas ocupavam 45,6% dos grupos de pesquisa, com menor presença em áreas científicas e tecnológicas. 

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Sandra reconhece esse peso no próprio percurso. “Tem, sim. Eu tenho uma família extremamente contributiva. Meu marido sempre me deu muito apoio. Mas, nitidamente, você está dobrando sua responsabilidade”, afirma. 

Ao assumir a direção científica, passou a acumular gestão, produção científica, formação de pesquisadores e captação de recursos. “Eu não posso deixar de ser cientista. Eu não posso deixar de formar pessoas. Eu não posso deixar de recrutar recursos”, resume. 

A maternidade atravessou esse processo. Para sustentar todas as frentes, precisou reorganizar a rotina. “Eu tive que sucumbir o meu tempo de casa para não deixar os pratinhos caírem”, diz. 

A trajetória, no entanto, não foi solitária. Sandra destaca a importância de uma rede de apoio formada por outras mulheres, desde referências no início da carreira até o apoio da mãe, Valéria, e de pesquisadoras e familiares. Mesmo com reconhecimento, as diferenças de tratamento ainda aparecem. “Existem posições que você toma que, se eu fosse homem, seriam acatadas e ovacionadas. Por eu ser mulher, elas são ouvidas e primeiro racionalizadas.” 

Instituída em 2004 por decreto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) é realizada anualmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com universidades, instituições de pesquisa, agências de fomento, escolas, museus, governos locais, empresas e entidades da sociedade civil. Em 2026, ao adotar como tema as Mulheres e Meninas na Ciência, a iniciativa reforça a centralidade de trajetórias como as de Sandra — pesquisadora cujos trabalhos demonstram, na prática, como a produção científica liderada por mulheres amplia o impacto social da ciência, conecta conhecimento às necessidades da população e contribui para a construção de um sistema científico mais diverso e representativo.

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Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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TECNOLOGIA

Governo do Brasil lança edital de arborização e mapeamento de ilhas de calor

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O Governo do Brasil anunciou a destinação de R$ 19 milhões para o financiamento de projetos de arborização e da plataforma Geocau de mapeamento de calor. Os anúncios ocorreram durante o 3º Encontro do Programa Cidades Verdes e Resilientes, em Brasília (DF). As ações integram o projeto CITinova II, estruturado por meio de uma parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Ministério das Cidades.

Nos últimos 11 anos, o mundo tem enfrentado os períodos mais quentes da história, segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO). Esses impactos são sentidos mais intensamente nas cidades. Por isso, o edital ArborizaCidades alocará os R$ 19 milhões a partir do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) e do Fundo Clima. A chamada pública é direcionada a municípios com população de 20 mil a 750 mil habitantes, com teto de R$ 2 milhões por projeto e prazo de execução de 36 meses.

Na área de monitoramento, o sistema Geocau foi desenvolvido com a Embrapa Agricultura Digital. A plataforma cruza dados de temperatura com a malha de setores censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), permitindo a visualização de ilhas de calor em todos os municípios brasileiros. Como suporte, o governo lançou a Coletânea Brasileira de Arborização Urbana, composta por cinco volumes. A publicação contou com o trabalho de 580 autores e colaboradores de cerca de 90 instituições de todo o Brasil.

Impactos climáticos

A coordenadora-geral de Ecossistemas e Biodiversidade (CGEB), Claudia Morosi Czarneski, relatou a centralidade das áreas urbanas no cenário climático. “É nelas que se concentra a maior parte da população, da atividade econômica e das emissões de gases de efeito estufa.” Segundo a coordenadora, os impactos climáticos, como enchentes e ondas de calor, afetam diretamente a saúde e o bem-estar das pessoas.

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Para mitigar esses efeitos, o governo utiliza Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Czarneski detalhou que “áreas verdes, corredores ecológicos, parques urbanos, arborização e sistemas naturais de drenagem são exemplos de intervenções que geram múltiplos benefícios: reduzem riscos, melhoram a qualidade de vida, fortalecem a resiliência e contribuem para a mitigação das mudanças climáticas”. Ela acrescentou que a expansão dessas áreas e a arborização podem reduzir as temperaturas e combater ilhas de calor.

Financiamento e articulação

A viabilização econômica das propostas é um dos eixos do projeto CITinova II. A coordenadora definiu a iniciativa como uma ação que “reconhece a complexidade dos desafios urbanos e busca integrar planejamento, governança e financiamento para promover transformações estruturais”.

Sobre a mobilização de capital, Claudia pontuou a necessidade de fortalecer mecanismos financeiros nacionais. “Isso significa mobilizar recursos e criar condições para que projetos com foco em clima e biodiversidade sejam estruturados de forma adequada, tornando-se financiáveis e atrativos”. O objetivo é apoiar estados e municípios na incorporação das temáticas de clima desde a concepção das iniciativas.

O Encontro do Programa Cidades Verdes e Resilientes é promovido pelo MMA, em parceria com Ministério das Cidades, MCTI, Presidência da COP30, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e Cool Coalition, além do apoio da C40, GCoM, WRI, ICLEI, Centro Brasil no Clima, Consórcio Brasil Verde e CCFLA. Atualmente, o programa tem a adesão de 1,3 mil municípios (23% do total nacional) e a iniciativa AdaptaCidades presta assistência técnica a 581 prefeituras, englobando 53 milhões de pessoas.

A programação também inclui o Programa Mutirão Brasil, com sessões técnicas sobre planejamento climático na Amazônia e gestão de resíduos, além da apresentação da Bússola Climática, ferramenta baseada em inteligência artificial para apoio à tomada de decisão climática com base em dados. Conforme concluiu Czarneski, “o enfrentamento do calor extremo e das mudanças climáticas exige ação coordenada, inovação e compromisso”.

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Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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TECNOLOGIA

Expansão da área protegida do Pantanal amplia o desenvolvimento de pesquisas sobre a fauna e flora

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A ampliação da área protegida do Pantanal provocará importante impacto positivo na produção científica sobre o bioma. Pesquisadores utilizam áreas de conservação e proteção para desenvolver pesquisas essenciais para o mapeamento da fauna e da flora locais.“A ampliação gera novas expectativas. A partir dela, passamos a ter acesso a outras áreas que se mantêm protegidas, permitindo aos pesquisadores ampliar o seu espectro de atuação”, explica o diretor do Instituto de Pesquisa do Pantanal (INPP), unidade vinculada do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Leandro Battirola.

O Pantanal é riquíssimo em diversidade de aves, peixes, anfíbios e répteis e, por isso, tem grande potencial na criação de bioinsumos para a agricultura e a pecuária de forma sustentável. Há, ainda, muitas possibilidades para o desenvolvimento de fármacos para tratamento, diagnóstico e alívio de doenças. 

O Governo do Brasil anunciou a ampliação da área protegida no Pantanal, incorporando cerca de 104 mil hectares ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação. O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP15), em 22 de março, em Campo Grande (MS). 

A ampliação abrange o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e a Estação Ecológica de Taiamã, duas áreas estratégicas para a preservação da biodiversidade na região. A estação passa de 11.554 hectares para 68.502 hectares, com a incorporação de 56.948 hectares. Já o parque nacional teve sua área ampliada de 135.922 hectares para 183.182 hectares, um acréscimo de 47.260 hectares. As duas unidades desempenham papel fundamental na preservação das áreas alagadas e dos berçários naturais que sustentam a pesca ao longo do Rio Paraguai. 

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Por ser um bioma sensível e diretamente afetado pelas mudanças climáticas, a maior área úmida continental do planeta depende diretamente do ciclo da água para a reprodução e segurança alimentar de espécies nativas da bacia hidrográfica do Alto Paraguai. 

 

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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