TECNOLOGIA
Prêmio Mulheres e Ciência celebra pesquisadoras e instituições que ampliam a presença feminina na ciência
Publicado
9 de março de 2026
A esperança e a união em prol de um mundo que valoriza a força feminina tomaram conta da entrega do Prêmio Mulheres e Ciência e emocionou pesquisadoras, representantes do Governo do Brasil e lideranças da comunidade científica. A cerimônia ocorreu em 5 de março, na sede do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
O prêmio é concedido a pesquisadoras que contribuíram para o conhecimento científico de excelência e o avanço tecnológico nacional e a jovens mulheres participantes do programa Asas para o Futuro, do Ministério das Mulheres. A iniciativa também contempla instituições comprometidas com o desenvolvimento de um ecossistema de educação superior e ciência mais inclusivo e diverso.
A ministra do MCTI, Luciana Santos, acredita que valorizar as mulheres na ciência fortalece a capacidade do Brasil de produzir conhecimento de ponta, de inovar com impacto social e de construir um desenvolvimento soberano. “Esse é o caminho para as novas gerações. Que esse prêmio siga crescendo e que se consolide como política de Estado. Que cada menina brasileira possa olhar para a ciência e se enxergar ali, não como exceção, mas como protagonista da sua própria história”, pontuou a chefe da pasta. “Porque lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na ciência, tecnologia e inovação.”
Para a atual gestão, ampliar a participação feminina na ciência é também uma estratégia de desenvolvimento social e econômico. “Quando o Estado cria oportunidades, as meninas e mulheres podem se olhar mais alto, transformar suas vidas e o futuro do País. Formação, apoio educacional, oportunidades profissionais e políticas de cuidado são instrumentos essenciais”, afirmou a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, durante a cerimônia.
O presidente do CNPq, Olival Freire Júnior, destacou que o prêmio integra um conjunto mais amplo de ações voltadas à promoção da equidade no sistema científico brasileiro. “Os obstáculos para o avanço da igualdade de gênero são mais profundos. São séculos de uma sociedade machista e patriarcal, da qual a própria comunidade científica faz parte. Por isso, prêmios como este são cada vez mais importantes para enfrentarmos essas desigualdades.”
Apesar de a participação feminina na pós-graduação, onde as mulheres já são maioria entre estudantes de mestrado e doutorado, ter aumentado significativamente, ainda existem desigualdades nas etapas mais avançadas da carreira acadêmica. “Premiações como esta são importantes, mas não podemos nos esquecer que ainda há muito trabalho pela frente. As instituições de ensino e pesquisa são espaços fundamentais para enfrentar as desigualdades de gênero na ciência”, alertou a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Carvalho.
O Prêmio Mulheres Cientistas é promovido pelo CNPq e pelo MCTI, com parceria do Ministério das Mulheres, da British Council e do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe.
Mulheres que transformam a ciência: as trajetórias das vencedoras do Prêmio Mulheres e Ciência
Nesta edição, o prêmio reconheceu pesquisadoras em três categorias — incentivo, estímulo e trajetória — além de instituições que desenvolvem políticas voltadas à promoção da equidade de gênero na ciência.
CATEGORIA INCENTIVO
Lara Dourado Borges — Instituto Federal do Espírito Santo (IFES)

- Estudante Lara Dourado Borges. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Aos 17 anos, Lara Dourado Borges encontrou na ciência um caminho que começou ainda no ensino fundamental, quando professores perceberam seu interesse por matemática e ciências e a incentivaram a tentar uma vaga no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). Aprovada para o curso técnico em mecatrônica, ela passou a ter contato direto com laboratórios, circuitos e atividades práticas que ampliaram sua visão sobre tecnologia.
No instituto, Lara teve acesso a experiências que marcaram sua formação, como projetos de elétrica e instalações técnicas. “Ali foi realmente o lugar que eu consegui expandir meus olhos para a ciência e para a tecnologia”, contou. Para a estudante, o prêmio representa mais do que uma conquista pessoal. “Significa para mim que meninas e mulheres podem, sim, estar na ciência; podem, sim, inovar e pesquisar; podem, sim, ocupar este lugar”, afirmou.
Laíza de Almeida Bridge — Sesi/Ifes

- Estudante Laíza de Almeida Bridge. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
A trajetória de Laíza de Almeida Bridge, de 18 anos, na ciência começou no ensino médio, quando conquistou uma bolsa integral para estudar no Sesi em um curso técnico ligado às energias renováveis. A experiência despertou seu interesse pela tecnologia e abriu caminho para novas oportunidades de formação.
Mais tarde, ao participar de um curso de instalações elétricas no Ifes, Laíza aprofundou esse interesse e decidiu seguir na área de engenharia. “Depois que eu entrei no curso, eu me apaixonei por elétrica”, relatou. Hoje, cursando engenharia ambiental, ela vê o prêmio como um reconhecimento importante para jovens pesquisadoras. “Foi um choque e uma honra. Eu fiquei muito feliz e me sentindo privilegiada de realmente conseguir ganhar esse prêmio”, disse.
Raíssa da Luz Rangel — Instituto Federal da Bahia (IFBA)

- Estudante Raíssa da Luz Rangel. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Estudante do curso técnico de metalurgia do Instituto Federal da Bahia (IFBA), Raíssa, 16 anos, teve contato com a tecnologia ainda cedo, em casa, acompanhando a irmã em atividades de informática e utilizando o computador no cotidiano da família. O interesse cresceu e a levou a prestar o processo seletivo para o instituto, onde iniciou sua formação técnica.
Durante a participação em projetos educacionais e científicos, a estudante passou a conviver com colegas de diferentes regiões da Bahia e ampliou sua perspectiva sobre a pesquisa e a formação profissional. Para Raíssa, receber o prêmio representa um marco pessoal e familiar. “Significa, além de uma felicidade pela minha futura carreira, uma forma de resistência para as pessoas da minha família”, afirmou, lembrando da avó que não teve acesso à educação formal, mas incentivou os filhos a estudarem.
CATEGORIA ESTÍMULO
Gabriela Lotta — Fundação Getulio Vargas (FGV)

- Pesquisadora Gabriela Lotta. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
A trajetória de Gabriela Lotta na ciência começou ainda na graduação em administração pública, quando percebeu que queria ir além da formação instrumental e compreender em profundidade como funcionam as políticas públicas. A oportunidade veio com uma bolsa de iniciação científica que a levou ao trabalho de campo. “A primeira vez que eu fui para campo foi no interior do Rio Grande do Sul (RS). Ali eu descobri que queria ser cientista e produzir uma ciência capaz de transformar o mundo”, contou.
Hoje professora e pesquisadora, Lotta dedica sua carreira a estudar o funcionamento do Estado e o papel de servidores públicos na implementação de políticas. Segundo ela, o reconhecimento do prêmio ultrapassa o plano individual. “Esse prêmio também tem um impacto coletivo, porque mostra para outras mulheres que é possível fazer ciência, ser reconhecida e continuar transformando a realidade.” Para a pesquisadora, diversidade é fundamental para o avanço do conhecimento científico. “Se a ciência significa compreender a realidade, precisamos de pessoas com olhares diferentes. A diversidade amplia o nosso repertório e permite fazer uma ciência mais capaz de explicar os fenômenos sociais”, afirmou.
Letícia Couto Garcia — Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

- Pesquisadora Letícia Couto Garcia. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Letícia Couto Garcia construiu sua trajetória acadêmica com forte apoio do financiamento público à ciência. Formada em instituições públicas, ela fez iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado com apoio de bolsas de pesquisa. “Toda essa trajetória é permeada pelo financiamento público. Graças ao investimento de cada brasileiro e brasileira, pude chegar até aqui”, destacou.
Para Letícia, o prêmio representa um reconhecimento que vai além da carreira individual e ajuda a dar visibilidade às causas e pesquisas desenvolvidas ao longo da vida acadêmica. “Ele dá luz à nossa trajetória e também às linhas de pesquisa e às pessoas que fizeram parte dessa caminhada”, afirmou. A pesquisadora também ressalta que programas de incentivo ainda são necessários para garantir a permanência de mulheres na ciência.
Rita de Cássia dos Anjos — Universidade Federal do Paraná (UFPR)

- Pesquisadora Rita de Cássia dos Anjos. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, a física Rita de Cássia dos Anjos construiu sua carreira em uma área historicamente dominada por homens. Para ela, a diversidade não é apenas uma questão de justiça, mas um elemento central para o avanço da ciência. “Quando você pensa em diversidade, você pensa em pessoas com diferentes experiências e olhares para o mesmo problema. Isso melhora a qualidade científica”, afirmou.
Ao longo da trajetória, a pesquisadora também se tornou referência para jovens que buscam seguir carreira na área. “Quando jovens veem mulheres desenvolvendo pesquisas de ponta, isso amplia seus horizontes sobre o que é possível”, disse. Segundo Rita, o reconhecimento trazido pelo prêmio reforça a importância de ampliar a presença feminina na ciência. “Ver meu nome entre as ganhadoras me emociona, porque sei que representa esperança para outras jovens que também estão começando suas jornadas”, destacou.
CATEGORIA TRAJETÓRIA
Deborah Carvalho Malta — Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

- Pesquisadora Deborah Carvalho Malta. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Médica, professora e pesquisadora da UFMG, Deborah Carvalho Malta construiu uma trajetória marcada pela articulação entre ciência, gestão pública e produção de evidências em saúde. Ao longo da carreira, atuou como sanitarista e integrou a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, onde coordenou importantes inquéritos nacionais e bases de dados que orientam políticas públicas.
“A conexão entre a ciência, a gestão e as evidências foi o diferencial da minha carreira”, afirmou a pesquisadora, que permaneceu por 12 anos no Ministério da Saúde antes de retornar à universidade para aprofundar pesquisas sobre desigualdades, promoção da saúde e doenças crônicas. Para Deborah, o prêmio representa uma celebração coletiva. “Eu entendo isso não como algo que diz respeito à minha aquisição enquanto pesquisadora, mas enquanto uma participação coletiva”, disse. “É como se nós estivéssemos celebrando juntos uma trajetória de vida.”
Teresa Bernarda Ludermir — Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

- Pesquisadora Teresa Bernarda Ludermir. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Teresa Bernarda Ludermir construiu uma carreira de referência nas áreas de computação e inteligência artificial. Para a pesquisadora, o reconhecimento do prêmio tem um significado que vai além da conquista individual.
“Trata-se de uma iniciativa fundamental para dar visibilidade à produção científica de excelência realizada por mulheres no Brasil, especialmente em áreas como a computação e a inteligência artificial, historicamente marcadas por baixa representatividade feminina”, afirmou. Segundo Teresa, iniciativas como essa também enviam uma mensagem importante às novas gerações. “Ao valorizar trajetórias consolidadas, o CNPq também envia uma mensagem clara às jovens pesquisadoras: é possível ocupar espaços de protagonismo na ciência brasileira e internacional.”
Liliam Cristina Barros Cohen — Universidade Federal do Pará (UFPA)

- Pesquisadora Liliam Cristina Barros Cohen. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Pesquisadora e artista da Universidade Federal do Pará (UFPA), Liliam iniciou sua trajetória científica ainda na infância, quando participou do Clube do Pesquisador Mirim do Museu Paraense Emílio Goeldi. “Eu ingressei na pesquisa muito jovem. Eu era criança, na verdade, fazia parte do clube de pesquisador mirim”, contou.
Ao longo da carreira, dedicada à etnomusicologia e aos estudos sobre música e identidade na Amazônia, ela também observa desafios estruturais enfrentados por cientistas da região Norte. “O que eu observo que tem sido ainda um deságio é a questão que eu denomino como geopolítica do conhecimento”, explicou, referindo-se às dificuldades de difusão da produção científica amazônica. Para a pesquisadora, ampliar a diversidade na ciência é essencial para produzir conhecimento de maior qualidade. “A diversidade traz formas distintas de ver o mundo e de produzir conhecimento sobre o mundo”, afirmou.
CATEGORIA MÉRITO INSTITUCIONAL
Universidade Federal do Pará

- Vice-reitora da UFPA, Loiane Prado Verbicaro. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Vice-reitora da UFPA, Loiane Prado Verbicaro avalia que iniciativas como o prêmio representam um estímulo importante para fortalecer políticas institucionais de equidade de gênero nas universidades. Segundo ela, ainda existem desigualdades profundas na ciência e na academia, especialmente em cargos de liderança.
“Essa premiação é muito importante para as universidades, porque representa um grande estímulo ao avanço das políticas de equidade de gênero”, afirmou. Para enfrentar essas assimetrias, a UFPA criou uma comissão dedicada ao tema e vem desenvolvendo ações que envolvem ensino, pesquisa, extensão e gestão acadêmica. A universidade também tem buscado implementar medidas concretas, como mudanças em editais, políticas que consideram a maternidade e a criação de espaços materno-infantis. “Construir políticas de equidade de gênero nos favorece no avanço da democracia e da igualdade na sociedade como um todo”, destacou.
Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)

- Reitora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Maria José de Sena. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Reitora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Maria José de Sena afirma que o prêmio reforça políticas de equidade de gênero que já vêm sendo desenvolvidas na instituição. A universidade mantém ações voltadas à valorização das mulheres, incluindo cotas em editais e programas de permanência estudantil.
Entre as iniciativas, ela destaca o auxílio menstrual oferecido a estudantes. “Pode parecer uma coisa muito pequena, mas não é, porque tínhamos estudantes que não tinham dinheiro para comprar absorvente”, explicou. Para a reitora, as universidades têm papel central na transformação social. “Tem que começar pela universidade, tem que começar na educação, porque começando na educação alcança a sociedade”, afirmou, defendendo também a ampliação de editais e prêmios que incentivem a participação feminina na ciência.
Universidade Federal do Piauí (UFPI)

- Reitora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Nadir Nogueira. Foto: Rodrigo Cabral (Ascom/MCTI)
Reitora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Nadir Nogueira considera que o prêmio fortalece o protagonismo das universidades na ciência, na pesquisa e na inovação. Para ela, a iniciativa também contribui para ampliar a participação feminina em projetos e editais de fomento.
Na UFPI, políticas institucionais têm buscado ampliar a presença das mulheres na pesquisa. “Dos projetos contemplados com fomento na universidade, cerca de 40% das bolsas de produtividade são destinadas às mulheres”, destacou. Segundo a reitora, as universidades têm papel fundamental na promoção da igualdade de gênero. “As universidades são um recorte da sociedade, mas também ajudam a transformá-la”, afirmou, ressaltando que políticas acadêmicas podem contribuir para reduzir desigualdades e ampliar o protagonismo feminino na ciência.
TECNOLOGIA
MCTI defende fortalecimento da ciência e da soberania em política de minerais críticos
Publicado
24 de abril de 2026
Os minerais críticos vêm ganhando centralidade no cenário global. Os ingredientes invisíveis, ou terras raras, são a base material de tecnologias essenciais e viabilizam sistemas impulsionados pela transição energética e pela expansão de tecnologias digitais — de celulares a carros elétricos. O assunto está no debate central na agenda de ciência, tecnologia e, principalmente, inovação, além de ser estratégico para o desenvolvimento econômico e a soberania tecnológica do País. No Brasil, o tema avança no Congresso Nacional, com a proposta de criação de uma política nacional para o setor, citada no Projeto de Lei 2.780/2024.
A matéria em discussão estrutura uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A proposta busca fomentar a pesquisa, a indústria, a distribuição, o comércio e o consumo dos produtos gerados. Além disso, ela cria um Comitê de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE) — que ficaria vinculado ao Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) e destinado à formulação de diretrizes com vistas ao desenvolvimento do setor mineral brasileiro.
Para o MCTI, o projeto de lei é um primeiro passo. “O projeto cria um arcabouço mínimo, mas não aprofunda essa questão”, avalia o chefe da Assessoria Especial de Assuntos Parlamentares e Federativos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luiz Rodrigues. De acordo com o ministério, a inclusão de recursos para ciência e tecnologia é um dos pontos positivos do texto, como a previsão de investimento mínimo de 0,4% da receita bruta das empresas em pesquisa e inovação. “O projeto avança ao destinar recursos para ciência, tecnologia e inovação. Não é o valor que desejávamos, mas foi o possível dentro do consenso político”, afirmou.
O MCTI entende que o desenvolvimento pleno da cadeia produtiva exigirá medidas adicionais. “Se o projeto for entendido como suficiente, a gente continua na situação atual”, alertou Rodrigues, ao destacar que o Brasil ainda enfrenta limitações estruturais para avançar nas etapas de maior valor agregado.
A avaliação da pasta é que o projeto em tramitação deve ser visto como ponto de partida para uma agenda mais ampla. “Ele não é o fim da discussão. É o início”, disse.
Para o ministério, a futura política nacional de minerais críticos deve incorporar de forma central a dimensão científica e tecnológica, com metas claras e integração com outras estratégias de desenvolvimento. A expectativa é que, a partir da aprovação do projeto, o debate avance para novas iniciativas capazes de consolidar uma cadeia produtiva mais robusta e menos dependente de tecnologias externas.
Minerais críticos
“Os minerais críticos são fundamentais na economia digital e na transição energética, com aplicações que vão de comunicação crítica a materiais de alto valor tecnológico”, explica Luiz Rodrigues.
Além do potencial geológico, o cenário internacional reforça a importância do tema. Atualmente, a cadeia global de minerais críticos — especialmente no caso das terras raras — é concentrada. “Esse mercado hoje é fortemente concentrado, especialmente na China, o que abre uma oportunidade para o Brasil se posicionar e avançar na cadeia produtiva”, disse.
Apesar das oportunidades, o avanço do País no setor depende de superar gargalos tecnológicos. Segundo Rodrigues, o domínio das etapas mais sofisticadas de processamento ainda é restrito a poucos países, o que limita a capacidade de agregação de valor. Segundo a Agência Internacional de Energia (International Energy Agency, IEA), a China responde por cerca de 91% do refino global de terras raras e cerca de 94% da produção de ímãs permanentes, etapa final de alto valor. “Não é só uma questão de investimento. É preciso investir em ciência, tecnologia e inovação e construir arranjos que deem capacidade ao País de avançar no processamento”, destacou.
Entre os desafios apontados estão a necessidade de ampliar investimentos em pesquisa, fortalecer a articulação com a política industrial e desenvolver modelos institucionais capazes de viabilizar o processamento no País. “Sem ampliar o investimento em ciência, tecnologia e inovação e estruturar arranjos produtivos, não será possível avançar no processamento no Brasil”, afirmou.
TECNOLOGIA
Pesquisa sobre águas da Amazônia leva Maria Teresa Fernandez Piedade ao Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2026
Publicado
24 de abril de 2026
A trajetória científica de Maria Teresa Fernandez Piedade, marcada por décadas de dedicação à Amazônia, foi reconhecida com o Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2026, uma das principais honrarias da ciência brasileira. Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ambos vinculados ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), ela se consolidou como referência no estudo das áreas alagáveis e da dinâmica dos rios amazônicos, essenciais para o equilíbrio ambiental e climático do País.
Desde o início de sua formação, a cientista já indicava o caminho que seguiria. “Sempre tive uma curiosidade natural pela água e pelos organismos associados”, relata. A escolha pela biologia veio acompanhada do desejo de atuar na Amazônia. “Quando decidi fazer biologia, imediatamente pensei em fazer pesquisa, e, de preferência, na região. Naquela época, esse desejo parecia apenas um sonho”, lembra.
Ao longo de quase cinco décadas, Maria Teresa concentrou seus estudos nas adaptações da vegetação e de outros organismos às variações dos níveis dos rios, fenômeno que altera profundamente os ecossistemas amazônicos. Segundo ela, compreender essa dinâmica é essencial para entender o funcionamento da floresta e suas conexões. “Meu trabalho é, principalmente, buscar as adaptações da vegetação aos corpos de água da região dos grandes e dos pequenos rios da Amazônia e estudar como os organismos se adaptam a esses sistemas onde a água sobe e desce ao longo do ano”, resume.
A pesquisadora também tem se dedicado a investigar os impactos das intervenções humanas nesses ambientes. Estudos conduzidos por sua equipe apontam que alterações no regime natural dos rios, como as causadas por barragens, podem provocar mudanças profundas na vegetação e na biodiversidade.
Apesar dos avanços, ela faz um alerta sobre os desafios persistentes. “É uma corrida contra o tempo”, diz, ao se referir às pressões causadas por desmatamento, poluição e mudanças climáticas. Para a cientista, ainda há grandes lacunas de conhecimento na região, o que torna urgente a formação de novos pesquisadores e o fortalecimento da ciência na Amazônia.
O prêmio
Ao comentar a premiação, Maria Teresa reconhece o caráter simbólico da conquista. “Receber o Prêmio Almirante Álvaro Alberto é um sonho inimaginável”, afirma. “Eu nunca pensei que receberia essa honraria, foi uma grata surpresa que me deixou bastante emocionada e lisonjeada”, comemora.
Ela também ressalta o papel do apoio institucional ao longo de sua trajetória, especialmente do CNPq, que viabilizou bolsas e projetos fundamentais para o desenvolvimento de suas pesquisas.
Piedade também enfatiza a importância de ampliar a participação feminina na ciência. “Nenhuma mulher deve se sentir menor e deixar de fazer pesquisa porque é mulher”, afirma, destacando a contribuição feminina para uma ciência mais colaborativa e sensível às dimensões humanas do trabalho científico.
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