Da Redação
O juiz da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, Jorge Luiz Tadeu Rodrigues, negou arquivar o inquérito contra o ex-secretário de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT), Rogers Elizandro Jarbas, suspeito de obstrução à Justiça nas investigações sobre o esquema de interceptações telefônicas ilegais conhecida como “Grampolândia Pantaneira”.

Segundo informações, o Ministério Público do Estado (MPE-MT) sugeriu em parecer que o ex-secretário da Sesp-MT, que atuou na gestão do ex-governador Pedro Taques (PSDB), deixasse de ser denunciado por falta de “elementos mínimos” que apontassem sua participação nas fraudes.
Jorge Luiz Tadeu Rodrigues, que não é obrigado a seguir o parecer do MPE-MT, porém, manteve a investigação.
DEVOÇÃO
Na decisão que determinou o afastamento de Rogers Jarbas da Sesp-MT, em 20 de setembro de 2017, o desembargador Orlando Perri revelou que o servidor público possui “devoção” ao ex-governador Pedro Taques. O magistrado é o relator no Poder Judiciário Estadual do inquérito que investiga o esquema de interceptações telefônicas ilegais no Estado, conhecido como “Grampolândia”.
“Não estou a me referir da suposta amizade nutrida entre o representado e o Governador do Estado de Mato Grosso, ou de sua admiração pelo atual Chefe do Poder Executivo Estadual, inclusive estampada em sua página no Facebook, até porque é uma questão pessoal e não implica em nenhuma prática criminosa tamanha devoção”, revelou o desembargador na época.
Orlando Perri explicava os motivos que levaram a delegada Alana Derlene Souza Cardoso a ser convocada para um depoimento por Rogers Jarbas em maio de 2017. Segundo ele, Pedro Taques recebeu um ofício da juíza aposentada, e senadora eleita, Selma Arruda (PSL-MT), no dia 26 de maio de 2017, pedindo esclarecimentos sobre duas operações da Polícia Judiciária Civil (PJC) – Forti e Querubim. Os procedimentos envolviam a interceptação telefônica de uma amante do ex-secretário-Chefe da Casa Civil, Paulo Taques, primo do ex-governador.
No mesmo dia (26 de maio de 2017), como descreve Perri, o governador enviou um ofício a Rogers Jarbas determinando “a adoção das providências de estilo” em razão do ofício de Selma Arruda. O secretário afastado, então, convocou a delegada Alana Derlene Souza Cardoso, que presidiu ambos inquéritos (Forti e Querubim) para esclarecimentos naquele mesmo dia. O desembargador afirma que Derlene não teve “oportunidade de tomar conhecimento do que se tratava sua inquirição”.
“O detalhe é que não se sabe, ao certo, a que título a Delegada Alana foi inquirida, pois, até aquele momento, não havia nenhum procedimento instaurado, e, pior, a autoridade policial sequer teve oportunidade de tomar conhecimento do que se tratava sua inquirição, tampouco teve tempo para se preparar, haja vista que foi surpreendida com a ‘convocação’ de seu superior”, diz trecho da decisão.
Orlando Perri suspeita que a convocação foi uma espécie de “investigação oblíqua” contra o promotor de justiça Mauro Zaque – autor da denúncia, em outubro de 2015, da existência de um “desprezível grupo criminoso formado para implantação de escutas ilegais”, segundo o desembargador. Durante o depoimento da delegada da PJC, Jarbas teria feito perguntas relativas a Zaque, o que causou estranheza à servidora pública.
Justificando ainda a suposta “devoção”, Perri também narra a “ajuda” oferecida a Paulo Taques, que “peticionou diretamente ao Secretário de Estado de Segurança Pública, Rogers Elizandro Jarbas, pedindo cópia do procedimento que tramitava sob sigilo”, em referência as operações que grampearam a amante do ex-chefe da Casa Civil. As investigações estavam sob sigilo e não poderiam ser repassadas a Taques sem a devida justificativa.
Orlando Perri descreve que uma cópia dos procedimentos também foi repassada ao próprio ex-governador Pedro Taques, conforme transcrição de trecho da decisão. “Além disso, chegou ao meu conhecimento, por intermédio do Ofício n. 1260/2017/PJC/MT, de 31/7/2017, subscrito pelo Delegado de Polícia Flávio Henrique Stringueta, que o Secretário de Estado de Segurança Pública de Mato Grosso não deferiu apenas o pedido formulado pelo Escritório Zamar Taques Advogados Associados, mas, também, na mesma data, acolheu ‘requerimento’ deduzido por seu chefe, o Governador do Estado de Mato Grosso, José Pedro Gonçalves Taques, determinando o fornecimento de fotocópia de autos sigilosos”.