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A luz que não absolve: Rembrandt e a anatomia da alma humana

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No Autorretrato de 1659, hoje na National Gallery of Art, em Washington, a luz desce pela testa de Rembrandt, encontra as pálpebras pesadas e deixa o resto do corpo se dissolver na escuridão. O homem que olha para nós já conheceu fama, dinheiro, luto e humilhações públicas. Mesmo assim, não pede piedade: a pintura coloca pintor e espectador sob a mesma luz — uma luz que revela, mas não absolve.Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 15 de julho de 1606, em Leiden, filho de um moleiro convertido ao calvinismo. Abandonou os estudos na Universidade de Leiden depois de poucos meses: o destino que o pai imaginara cedeu lugar à pintura. Formou-se com Jacob van Swanenburgh e depois com Pieter Lastman, em Amsterdã, que o aproximou das cenas bíblicas e mitológicas. Diferente de quase todos os pintores de seu tempo, nunca foi à Itália — conheceu a arte italiana por gravuras e coleções, e tratou de fazer a Itália chegar até ele.Aos 25 anos, em 1631, mudou-se para Amsterdã, cidade em ascensão, onde comerciantes buscavam nas próprias paredes o prestígio que, em outros lugares da Europa, pertencia a reis e altares católicos. Rembrandt entendeu esse mercado sem se render totalmente a ele: um ano depois de chegar, recebeu a encomenda de A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (1632, Mauritshuis, Haia). Em vez de alinhar os cirurgiões em fila, pintou-os em plena ação, cada um olhando para um ponto diferente. O cadáver era o de Aris Kindt, um ladrão enforcado horas antes — e recebe a mesma luz que os médicos, como se lembrasse que o conhecimento ali dependia da carne de um homem descartado.Em 1634, casou-se com Saskia van Uylenburgh. Dos quatro filhos do casal, só Titus, nascido em 1641, sobreviveu à infância. Saskia morreu em 1642, ano em que Rembrandt terminou A Ronda Noturna (Rijksmuseum), reinventando o retrato coletivo: em vez de guardas posando em fila, ele os pinta saindo do repouso, uma menina iluminada passando entre homens e armas, como se o espectador chegasse no instante em que a companhia começa a marchar.A biografia costuma ser resumida como parábola simples: jovem pobre enriquece, vive com luxo, termina arruinado. Há verdade nisso, mas não é toda a verdade. Rembrandt comprava obras de arte e curiosidades para o ateliê, que funcionava também como escola e pequeno museu particular. A ruína também é história econômica: a crise dos anos 1650 e o gosto do mercado migrando para uma pintura mais polida, que ele recusou seguir. Em 1656, recorreu a um processo formal de insolvência, entregando os bens aos credores para evitar a prisão.Depois de Saskia, relacionou-se com Geertje Dircx e, depois, com Hendrickje Stoffels — com quem não se casou, para não comprometer a herança deixada a Titus. Em 1660, os dois passaram a controlar legalmente a venda de suas obras, o que o protegia dos credores mas o transformava, no papel, em quase empregado do próprio filho. Mudou-se para uma casa modesta na Rozengracht.Hendrickje morreu em 1663; Titus, em 1668, poucos meses depois de casar. Rembrandt, que já enterrara Saskia e três filhos pequenos, sobreviveu também ao único que chegara à idade adulta. Morreu em 4 de outubro de 1669, sepultado sem pompa na Westerkerk — quase nada restava da coleção que enchera sua casa. Seria fácil explicar a obra toda por essa sequência de perdas, mas Rembrandt já investigava medo, culpa e solidão quando era jovem e bem-sucedido: a tragédia pessoal aprofundou uma pesquisa que já existia, não a inventou.O estilo nasceu da observação e do desenho, a serviço do gesto: uma mão pousada sobre outra, um rosto que se inclina, um olhar que evita o centro da cena. A marca mais lembrada é o forte contraste entre luz e sombra, técnica que remonta a Caravaggio mas que Rembrandt levou para outro lugar: sua luz escolhe o que aparece e o que fica indecifrável, e as sombras nos olhos impedem que a expressão se feche numa única emoção.Na fase madura, passou a usar a tinta de um jeito mais grosso, quase esculpindo a superfície do quadro — como em A Noiva Judia (Rijksmuseum), em que a mão do homem repousa sobre o peito da mulher, sem beijo ou cenário grandioso. Em O Retorno do Filho Pródigo (Hermitage), a parábola se reduz a um abraço: o filho ajoelhado e descalço, o pai com as mãos sobre seus ombros, sem euforia — só cansaço e misericórdia. Rembrandt vestia vizinhos como patriarcas, e assim o sagrado ganhava rugas e tecido gasto.Pintou, desenhou e gravou o próprio rosto ao longo de quase toda a vida. No início, usou-o como laboratório de expressões — surpresa, riso, medo. Depois, apresentou-se como artista culto, à maneira dos mestres renascentistas. Nos últimos anos, já não ensaia caretas nem afirma posição social: examina a matéria envelhecida do próprio corpo. Vistos em sequência, esses trabalhos formam uma espécie de autobiografia visual, registrando as imagens que ele escolheu construir de si mesmo diante do tempo.Conhecer Rembrandt só pelas pinturas é conhecer metade da obra: ele foi também um dos maiores gravadores da história, com cerca de 290 estampas. Costumava retrabalhar a mesma imagem várias vezes — como em As Três Cruzes (1653), que em versões posteriores ficou mais escura e sombria. A imagem não era algo fixo; mudava conforme ele voltava a mexer nela.Rembrandt importa até hoje menos pelo domínio da luz e da composição do que por ter mudado a forma de representar a dignidade humana: seus personagens não precisam ser belos ou moralmente simples para merecer atenção — o condenado na mesa de anatomia, o filho que volta derrotado, o próprio pintor falido, todos observados sem sentimentalismo fácil e sem desprezo. A obra também revela as contradições da Era de Ouro Holandesa: riqueza mercantil, vigilância calvinista, prestígio que virava insolvência da noite para o dia.Amsterdã é o ponto de partida para ver essas obras de perto: o Rijksmuseum reúne A Ronda Noturna e A Noiva Judia, e a Casa de Rembrandt preserva os cômodos onde ele viveu entre 1639 e 1658. O Mauritshuis, em Haia, guarda A Lição de Anatomia; a National Gallery of Art, em Washington, o Autorretrato de 1659; e o Hermitage, O Retorno do Filho Pródigo.Rembrandt perdeu a esposa, os filhos, a casa e a coleção. Não perdeu a disposição de olhar. Quanto mais áspera ficava a vida, menos a pintura parecia disfarçar a aspereza das coisas. Nos últimos quadros, a tinta se acumula, os contornos vacilam, a escuridão ocupa mais espaço — mas a luz continua ali, tocando por um instante um rosto, uma mão, antes de recuar. O que fica diante de nós é o ser humano: incompleto, vulnerável e ainda visível.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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Corregedoria capacita contadores credenciados e estagiários de Contabilidade

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Instrutor em pé fala diante de uma sala de informática lotada, com alunos em bancadas usando computadores. Ao fundo, uma projeção exibe a tela de um sistema.A Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso (CGJ-MT), por meio do Departamento de Apoio aos Juizados Especiais (DAJE) promove Capacitação para Contadores Credenciados e Estagiários de Contabilidade do Poder Judiciário de Mato Grosso. Entre agosto e setembro, 19 profissionais que atuam no Fórum de Cuiabá e no Complexo dos Juizados Especiais irão aprimorar conhecimento técnico e uniformizar procedimentos na busca por uma melhor prestação jurisdicional.

O treinamento se encerra no dia 02 de setembro e conta com 11 encontros presencias que começaram em 03 de agosto, no Laboratório da Escola dos Servidores do Poder Judiciário, em Cuiabá. Com carga horária de 66 horas, a capacitação está sendo ministrada pelos instrutores internos: Carlos José Rodrigues, Deniz Pedroso de Almeida, Rosivaldo Guimarães, Angélica Vilalva Guimarães e a diretora do DAJE, Shusiene Tassinari Machado.

Durante os encontros, os participantes acompanham as atualizações normativas, aperfeiçoam conhecimentos técnicos, desenvolvem atividades práticas com cálculos em processos reais e discutem procedimentos utilizados na elaboração de laudos contábeis.

Segundo o instrutor e contador Carlos José Rodrigues, o objetivo é alinhar a atuação dos profissionais que prestam apoio técnico ao Judiciário.

“A ideia é padronizar os procedimentos. Não importa se o cálculo é realizado em Cuiabá, Rondonópolis ou qualquer outra comarca. O importante é que todos utilizem o mesmo padrão. Muitos profissionais estão ingressando agora e ainda não tiveram contato com essa rotina. Por isso trabalhamos com processos reais, discutimos cada etapa e esclarecemos as dúvidas que surgem no dia a dia”, explica.

A diretora do DAJE, Shusiene Tassinari Machado, ressalta que investir na qualificação dos contadores credenciados e estagiários é investir na qualidade da prestação jurisdicional. “É sempre importante proporcionar essa atualização técnica, uniformizar procedimentos e preparar os profissionais para atuarem de forma segura e alinhada às necessidades da unidade judicias”, pontua.

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A contadora credenciada desde 2021, Janiluce Duarte Gonzaga, aprovou a iniciativa e destacou a importância da capacitação para a padronização dos procedimentos e o aprimoramento do trabalho desenvolvido pelos profissionais.

“Quando comecei não tivemos um treinamento tão detalhado. Agora tudo está sendo explicado passo a passo, com exemplos práticos. Isso ajuda muito no aprendizado e também na padronização do trabalho desenvolvido pelos contadores”, avalia.

Para a contadora recém-credenciada, Raquel Cristiane de Oliveira, o curso está sendo o primeiro contato com os sistemas e procedimentos utilizados pelo Poder Judiciário.

“É a primeira vez que atuo como contadora credenciada e ainda não havia tido acesso ao sistema. Ele está sendo importante porque nos prepara para executar um trabalho mais profissional e nos dá condições de aprender antes de iniciar as atividades. O que proporciona mais segurança para o exercício da atividade”, pontua.

Larissa Klein

Lucas Coutinho

Assessoria de Comunicação da CGJ-TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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